O despertador toca e logo se escuta o ruído matinal que o acompanha, os passarinhos
cantam saudando o novo dia, e as árvores farfalham sob a janela do quarto comunicando a
chegada do sol, estirado na cama macia rodeado por travesseiros e cobertas, abro as cortinas
e deixo a luz entrar, gradualmente, ela abraça o espaço inteiro com uma luminosidade morna
e acolhedora. Juntamente com o ingresso do sol, as cortinas revelam um céu permeado por
nuvens semelhantes aos travesseiros que me envolvem, trazendo uma tranquilidade que
atinge o espírito. Ao levantar da cama, os meus pés tocam no chão de madeira que fora
aquecido pelos raios solares que o cobrem, os mesmos que beijam meu rosto antes escondido
nas sombras e que agora cumprimenta esse novo amanhecer, em seguida, abro a janela e a
brisa da manhã transpassa meu corpo, agitando o quarto e trazendo consigo o perfume
refrescante do campo. Com um pesar sonolento, entro no banheiro gelado com arrepios nos
pés que se espalham pelo resto do corpo, em um gesto rápido, ligo o chuveiro e a água
ardente aquece o ambiente em uma neblina reconfortante que embaça as altas claraboias
revelando um céu turvo e opaco, em seguida, ao terminar o banho, o calor do sol termina de
secar o meu corpo envolto na toalha umedecida.
As grandes portas do quarto dão acesso a um amplo espaço que reúne todas as
atividades que acontecem na casa, os moveis de cores vibrantes organizam-se de forma
convidativa e clamam pela ocupação do espaço em sua volta. Ligo o rádio e logo preparo um
café tão quente e tão fresco como os raios de sol que entram pelas grandes janelas da casa,
pelas quais passa a mesma brisa que antes agitou o quarto e que agora acorda as plantas
floridas que timidamente se estremecem ao redor da sala que agora é impregnada pelo aroma
da bebida negra. Com a xícara na mão, sento-me na poltrona macia que abraça meu corpo
como um amante mudo e carinhoso e me perco na vista que a manha expõe pela extensa
janela da sala. Após escapar da paisagem, antes aprisionado por sua beleza, volto-me para os
materiais de arte que se espalham pela mesa suja de tinta, manchas de grafite e marcas
redondas das incontáveis xícaras de café, assim, inicio o trabalho diário entre goles quentes,
rostos franzidos e momentos de distração.
O fim das tarefas traz consigo o entardecer, assim como nuvens acinzentadas que
recobrem o céu antes azulado, o sopro da tormenta causa uma agitação como se as cortinas e
as plantas comentassem sua chegada repentina. Logo, as gotas começam a respingar na
varanda e nas janelas, trazendo o murmúrio reconfortante da chuva, as cortinas de água
escorrem pelos amplos vidros da casa distorcendo a paisagem antes ensolarada, sentado, olho
a chuva cair com reconforto por estar seguro dentre os braços de minha fiel poltrona, desse
modo, persisto em observar a ação da chuva na paisagem que agora se mostra bem diferente
daquela experimentada pela manha, tanto aquela fora da casa como a esta dentro dela, as
sombras criam uma nova perspectiva do espaço que transpassa um sentimento mais sóbrio e
sonolento porem, aconchegante.
Assim sendo, o chão de madeira mantém o resquício do calor
do sol que se fora, mantendo um ambiente agradável dentro da casa, como efeito da
tempestade, a meia luz das luminárias é interrompida por flashes de luz que revelam as
intensas cores dos moveis, agora amenizadas pelas sombras das nuvens pesadas. Por fim, o dia
termina com uma fina garoa na paisagem escurecida e um agradável cochilo no sofá macio
composto pelas diversas texturas das mantas que o cobrem, na simpática mesa de centro se
apoiam os óculos embaçados, as xícaras de café já frio e o celular amigo, iluminados pelo
notebook ainda acesso caído sobre o tapete aveludado e pelas luminárias amareladas no
ambiente semiescuro.





